ESSA CAMISA

O artilheiro pode até vibrar, como eu vibro, quando faz um gol decisivo. O goleiro pode até erguer, como eu ergo, os braços na direção do céu após defender o pênalti crucial. E o time todo pode até comemorar loucamente, como eu comemoro, quando da conquista de um título expressivo. Mas eles nunca chorarão a rubra como eu choro, nunca sofrerão essa camisa como eu sofro. Eles nunca a entenderão como eu a entendo, pois eis que partem, eu fico.
Dói ver o grande título escapar por entre os dedos. Dói perder para o rival d´além quadras, mesmo que apenas vez que outra. Dói ser mero coadjuvante nos torneios mais taludos. Dói ver o artilheiro partir sem reposição. Dói ver que a reposição "já estava por aqui" e dói de raiva ver que a madita "reposição" não entende minhas críticas.
É tanto desamor em série que nem sei onde dói mais. Talvez no peito, lado esquerdo, onde pulsa o distintivo dessa camisa, bem onde os atletas desferem o beijo cenográfico, sob as luzes dos holofotes. Não sou tolo a ponto de pedir que os profissionais modernos desenvolvam amor por essa camisa, mas espírito vencedor e doação no campo de jogo seriam mais agradáveis aos meus olhos e não foderiam com a minha paciência. O beijo cínico da apresentação é como uma amarrotada marota nessa camisa e na minha inteligência. Eu dispenso. Até porque esse direito sagrado é prerrogativa minha. Apenas eu sei como beijá-la.
A esses profissionais do desamor, só peço que justifiquem os gordíssimos salários. Não rastejem em campo, como o fez recentemente o argentino que veste a 10 porque estava de beicinho contra o ex-treinador pastoril.
Sê profissional na hora de receber, mas sê profissional na contrapartida, pelo menos.
A esses profissionais do desamor, só peço que não me chamem mais de puxa-saco em entrevista coletiva de pós-jogo. Quem me desrespeita, desonra a camisa que paira sobre todas as outras. Além disso, é um tremendo de um oportunista quem me ofende após uma vitória.
Também aos amadores do desamor, esses que cuidam dessa camisa atualmente, peço que larguem de mão as odiosas lides da censura: quem sofre por essa camisa pode e deve reivindicar maior denodo e cobrar explicações quando bem entender. Então, seu Presidente, pensa um milhão de vezes antes de dar de ombros pra minha importância. E, Vice de Futebol, não esconde teu ano de fracassos na minha paleta, dizendo que só apoio essa camisa nas horas boas. Manobra diversionista não vai colar comigo, mas sim um time que honre a camisa que veste. Isso cola!
Enfim, essa camisa não foi inventada pelo Carvalho, não pertence ao Piffero e não foi reconfeccionada pelo Miranda. Essa camisa tem poder, pois sobreviveu à furia intercalada de Záchias e Asmuz. Essa camisa não pertenceu a Feijó, a Medeiros nem a Dallegrave. Não foi peça de relíquia de Balvé, de Centeno ou de qualquer ex-presidente, bem-feitor ou benemérito. Essa camisa não foi da Aplub, não é da Tramontina, da Unimed nem do Banrisul. Essa camisa não pertence, tampouco, à sanha de consumo da Reebok. Essa camisa não tem preço. Essa camisa não tem dono.
Meus prezados senhores detentores de cargos diretivos, ser Campeão de Tudo é muito bom, mas é ainda melhor ser, tão somente, o Clube do Povo.
Por isso eu não consigo me acostumar com certas atitudes de alguns profissionais. Eu não tolero tanto desleixo, tanto descaso, como a felicidade geral pela desistência do clube em concentrar-se para os embates finais do certame. Não que concentração ganhe jogo, mas as entrevistas dos jogadores desmonstram, no mínimo, falta de foco e comprometimento com ela, com a camisa, essa camisa que tanto falo desde o título desse texto torto.
Só faltou a esses "profissionais" afirmarem, em gozo coletivo, algo do tipo: "U-Hu!!! O técnico é nosso chapa!" Quem os cobra? Eu? Mas como, se o Presidente dá de ombros pra minha existência e o Vice diz que sou um mero oportunista, torcedor de resultados?































